Gênesis | Dores de parto

Jacó chegou em uma terra entranha, longe dos pais e fugido do irmão. Se apaixonou por Raquel e teve que trabalhar vários anos para que seu sogro lhe desse a filha em casamento.

Não bastasse a espera, foi enganado e teve que receber a irmã mais velha, no lugar da esposa que queria. Ele teve filhos com elas e suas duas servas, porém Raquel era estéril.

Quando ela engravidou a primeira vez, já foi um milagre. Na sua segunda gravidez, ela morreu durante o parto, deixando dois filhos (Gênesis 35.19).

Qualquer tipo de luto é difícil, então vamos imaginar como terá sido acompanhar todo um período de gestação, criar expectativa pela chegada de mais um motivo de alegria e ter que dizer adeus em um momento que deveria ser de grande felicidade.

A contradição cruel do modo e do momento em Raquel morreu deve ter sido dolorosa para todos da família, mas para Jacó deve ter sido inexplicável.

José, o filho mais velho, perdeu os braços acolhedores da sua mãezinha. Benjamim, o recém-nascido, não teria o seio carinhoso da pessoa com quem ficou conectado na gestação. A irmã perdia a pessoa com quem cresceu junta e os sobrinhos que perdiam a figura da tia. A perda deve ter sido terrível para todos.

A solidão aumenta a dor da perda. Jacó não estava ficando sozinho, pois tinha a companhia das outras mulheres e dos filhos, o que talvez tenha aliviado um pouco seu sofrimento, mas não nos permite desconsiderá-lo, pois se tratava de alguém muito importante pra ele.

O apoio familiar é essencial para diminuição dos efeitos do luto, pois não há substitutos para um vínculo de apego. A organização familiar é insubstituível. Mesmo quando fugimos de um lado para o outro em busca de liberdade, os momentos de tensão nos fazem querer voltar para casa.

A alegria do nascimento de um filho e a tristeza da morte da mulher amada competiam em uma confusão de sentimentos. Talvez seja impossível saber o que pesava mais naquela hora, pois a lembrança da mãe estava marcada naquela criança.

A saudade devastadora fazia parte dos cuidados com aquela criaturinha inocente e o semblante do luto devia ser pegajoso no momento de alimentá-lo, de colocá-lo para dormir e de acolher aquele pequenino que carregava o peso da perda em seus ombros pequenos e indefesos.

José deve ter ficado muito confuso, pois com a chegada do seu irmão, a mãe teve que partir. Deve ter sido muito complicado explicar para uma criança o que havia acontecido e que ele nunca mais a veria, restando ainda a figura pequena de um irmão mais novo.

A certeza do toque na barriga que carregava uma imensidão de planos e expectativas alegres, foram trocadas pelo sepultamento de uma mãe, esposa, filha, dona de casa, irmã, tia e quantos outros papeis aquela mulher desempenhasse.

A visão do crescimento de um fruto vivo que estampava para todos a alegria do sorriso de uma criança, foi substituída pela despedida do seio que iria amamentar o bebê.

Muitas palavras que prediziam a vinda de uma preciosidade para a família tiveram que ser moldadas em sinal de luto, choro e lágrimas. Que momento difícil deve ter sido para aquela família e principalmente para o pai viúvo.

As dores daquele parto não atingiram apenas a mãe que deu à luz, mas toda uma família, que teve que enfrentar dois momentos do ciclo da vida de uma só vez: nascimento e morte.

Hoje os partos são mais sofisticados, mas as dores continuam as mesmas. Misturar a sensação de expectativa de ganho com o resultado da perda não é fácil e muitos desses acontecimentos nos fazem perder a vontade de continuar ou mesmo de alimentar novas esperanças.

Fazemos parte de um plano que nos transcende e um pedaço da grandeza desse plano pode ser mostrada pelo acolhimento familiar. A natureza dessa organização não exige ensinamento para essas horas, pois um abraço é suficiente para amparar alguém.

Seria muito bom que isso nunca se perdesse, que sempre pudéssemos nos deparar com a disposição do tempo genuíno das pessoas com quem temos laços vitalícios.

Existe uma capacidade imensa de cura dentro de cada um de nós e que não deveria esperar por momento difíceis para serem usadas. A vida é cheia de surpresas e não sabemos quando, como, nem quem vai precisar do nosso apoio.

O amparo verdadeiro acontece sem julgamentos, sem conselhos, sem críticas, sem frases feitas, simplesmente com um toque, um compartilhamento e um olhar de quem se importa.

Não é preciso saber muito para permitir-se sentir a dor de alguém e fazer de uma expressão a forma vital da continuidade, dando apenas a convicção de que não se está só. Isso vale mais do que toda a ciência.

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