Gênesis | Calafrio da rejeição

A predileção por um filho pode ser uma escolha perigosa. É impossível que os demais não percebam quando existe um irmão com mais atenção, prioridade de afeto, exclusividades e regalias.

Quando há um papel específico para determinada pessoa ou uma necessidade de cuidado diferenciado, isso precisa ser devidamente comunicado, pois a fusão entre o pai e o filho preferido gera uma consequente exclusão dos demais e um desbalanceamento emocional no sistema familiar.

Jacó parecia não saber administrar o excesso de zelo com José. Ele o colocava como uma espécie de espião, que trazia as más notícias que possivelmente geravam punição (Gênesis 37.2).

Ele lhe deu um presente exclusivo, uma túnica, que os outros não tinham acesso, causando uma inveja natural entre eles. É possível perceber que o pai facilitava um ambiente de conflito dentro da própria casa (Gênesis 37.3-4).

Quando José teve um sonho que revelava que ele seria superior aos irmãos, estes passaram a lhe ver como arrogante e pretencioso, caracterizando um convívio perigoso na família (Gênesis 37.18).

Jacó parecia ignorar a reação dos outros filhos diante da sua predileção. Se de forma consciente ou não, ele estava estabelecendo uma hierarquia mal comunicada, estimulando o sentimento de rejeição.

Sentir rejeição de quem deveria prover amor é muito doloroso e capaz de despertar muitos outros sentimentos indesejados. É como se precisássemos de alguém e essa pessoa não estivesse disponível.

Criamos expectativas com relação às pessoas e dificilmente estas são satisfeitas da forma como esperamos. E quando isso acontece com os pais, o desapontamento é ainda maior.

Nascemos e crescemos com uma força natural de esperança, que vai se perdendo com o desenrolar das decepções. Se isso acontece com muita evidência dentro de casa, as demais relações serão conduzidas por esse trauma.

Os irmãos de José estavam lhe vendo como uma pessoa arrogante e talvez ele estivesse sendo mesmo. Os seus sonhos eram vistos como mensagens ocultas de superioridade.

Até mesmo seu pai já estava surpreso com os sonhos que ele estava tendo, como se o menino que foi posto acima dos irmãos também estivesse se colocando acima dos próprios pais (Gênesis 37.2).

Mas Jacó preferiu se calar, guardando em seu coração o que estava acontecendo, enquanto seus irmãos tinham inveja daquele rapaz. Afinal, era difícil entender o papel de José, pois se ele estava no mesmo nível dos irmãos, deveria ser tratado como tal (Gênesis 37.11).

Eles deviam imaginar qual seria seu próximo sonho, pois ele já estava acima dos irmãos, sonhava que seus pais se prostrariam diante dele, agora só faltava ele se colocar acima de Deus.

A figura de um monstro já estava formada e precisava ser eliminada, pois quem deveria tomar providência não fazia nada a respeito. Pois existe uma expectativa natural dos filhos de que os pais sejam provedores de soluções.

Foi então que os próprios irmãos conspiraram contra ele para mata-lo, mas acabaram vendendo-o como escravo e forjando sua morte para seu pai, que quando soube da morte do filho, desejou ter morrido também (Gênesis 37.18-36).

Um verdadeiro caos. Filhos raivosos, outro se sentindo superior, violência, sequestro, tentativa de homicídio, mentira, luto, perda e dor. Tudo por causa de um desequilíbrio familiar.

Não importa a quantidade de filhos, todos precisam de apoio, cuidado e proteção. A estrutura da família é muito importante para denunciar possíveis riscos, que podem trazer menos ou mais consequências do que nessa história.

Cada pessoa em desenvolvimento precisa se sentir acolhida em suas individualidades. Os planos para cada filho não precisam, nem devem ser os mesmos, mas isso não coloca irmão sobre irmão.

Gn.37.3 - Hoje

Hoje, vemos filhos que assumem responsabilidades que deveriam ser dos pais. Ajudar em casa e cuidar de um irmão precisa ser devidamente conduzido, de forma que uma criança não se sinta responsável pela outra.

Hoje, alguns pais educam gerentes e diretores ao invés de pessoas para uma vida de harmonia e respeito. Os filhos são pressionados a apresentarem resultados nas demasiadas atividades que exercem desde pequenos.

Hoje, os pais preferem dar um presente caro do que ter tempo de qualidade para seus filhos. E a criança na verdade está crescendo e cheia de vontade e curiosidade de aprender com seus melhores exemplos.

Hoje, é mais fácil dar um dispositivo eletrônico ou colocar a criança diante de inúmeras cores hipnotizantes. A vida corrida dos pais tem feito com que o abismo da negligência crie outros tipos de abismos, como a indiferença.

Hoje, é necessário entregar os filhos nas mãos de estranhos, que trazem uma bagagem totalmente diferente da dos pais e geram, mesmo sem querer, uma confusão de valores nos pequenos.

Hoje, as pessoas não compreendem o vazio que possuem desde sua criação, por causa de negligência e das superpromoções que aparecem para compensar a falta de real presença dos pais.

Hoje, as pessoas não compreendem porque precisam sofrer para aprender coisas simples, que deveriam ter sido ensinadas em casa. Seus relacionamentos são perdidos porque são ignorantes no trato com pessoas.

Hoje, a necessidade de independência é fortemente confundida com a incapacidade de prover reconexões. Fugir se torna mais agradável do que enfrentar e a “facilidade” da vida vai enchendo esse vazio de nada.

Hoje, as pessoas não conseguem perceber que existe um Deus, porque estão mais ocupadas tentando compensar a “injustiças” da vida, do que buscando a simplicidade das suas raízes familiares.

Gn.37.3 - Reflexao

Nascemos e ficamos até o fim em uma escola chamada família, temos professores que não possuem formação, nem grau de instrução, temos coleguinhas que podem se tornar adversários ou parceiros. Ela está conosco até mesmo nos mais distantes confins, pois levamos sua história, mandamentos e regras que nos formam. Essa organização é insubstituível e não há nada nesse tempo todo de existência que opere o seu papel. Pensamos, sentimos e multiplicamos seus ensinamentos, seja na exatidão das suas aulas ou na oposição, que não desmente sua influência. O mundo mudou e tudo juntamente com ele, inclusive os conceitos a respeito dessa instituição, mas nada conseguiu impregnar tanto conhecimento durante o nosso desenvolvimento como pessoas. A força da família é inegável e capaz de moldar universos imensos de modos e crenças, fazendo com que cada caminho trilhado seja estabelecido, mas nunca promovendo sua exclusão.

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