Gênesis | Novo significado

Depois que José percebeu que os valores de seus irmãos haviam mudado e que estavam dispostos a fazer um sacrifício pelo irmão mais novo, ele não se conteve e revelou quem era, em um gesto de muita emoção (Gênesis 45.1).

Ele se revelou em um abraço fraterno, tratando os irmãos de uma forma com a qual não fora tratado por eles. Ele não só perdoou o que havia acontecido, mas retirou o peso da culpa que eles ainda demonstravam (Gênesis 45.4-5).

José deu um novo significado a tudo que havia acontecido com ele, deixando bem claro que ele acreditava que Deus o havia enviado a frente, para que estivesse naquela posição e pudesse ajudar sua família (Gênesis 45.5-8).

Quando se procura com vontade, é possível encontrar um novo significado disponível para toda frustração da vida. É preciso sondar com muito cuidado e determinação, pois as situações mais dolorosas podem ser um bem maior.

Isso não diminui a responsabilidade daqueles irmãos pelo que fizeram a José, nem apaga o sofrimento que esse rapaz passou durante os anos de escravidão, mas amplia muito a visão e as possibilidades de continuidade e recomeço.

O nosso primeiro impulso é punir aqueles que nos magoaram, sem prestar atenção ao que eles aprenderam na vida e o aos fatos que estão como pano de fundo. Fazemos o possível para achar culpados, inclusive em nós mesmos.

José, porém, viu uma oportunidade de mostrar para sua família, que ele estaria disponível para enxergar a sua trajetória de outra forma. Ele deu uma nova conotação para o que seus irmãos haviam feito com ele e com seu pai.

O ponto alto de nos permitirmos ver as adversidades de outra forma acontece quando estabelecemos a nós mesmos, em um patamar humildemente elevado, diante das circunstâncias, sejam do passado, presente ou mesmo do futuro.

Na vida, temos muitos desencontros, mas são os reencontros que nos permitem acreditar em novas perspectivas. Quando engessamos nosso pensamento na mágoa, ficamos a mercê das suas consequências e mitos.

Não se trata de ter uma visão positiva de tudo, pois isso não existe, mas saber que, em meio as dores e perdas, podemos definir um propósito real que nos extrai do círculo opressor da culpa, do ressentimento e da falta de esperança.

Sentir a dor de uma rejeição foi o que José fez durante anos, mas ele teve uma nova opção naquele momento, que lhe daria ainda mais paz e possibilitaria reaver aquilo que tinha sido perdido, com acréscimos antes não imaginados.

A posição de governador não havia curado as feridas de José. Mas ele encontrou uma nova posição mental, com um novo meio de olhar para a situação, de forma mais abrangente, sabendo que havia um propósito maior naquilo.

Ele viu a oportunidade de atribuir a Deus aquilo que ele não tinha controle. Com a delicadeza de não achar culpados, ele se permitiu saber que todo o seu sofrimento teve uma causa maior do que a sua dor, maior que ele mesmo.

Deus não era responsável pela maldade dos seus irmãos, na época em que eles lhe venderam como escravo, mas foi responsável por pegar uma situação de muito sofrimento e transformar em algo benéfico para muita gente.

Todos tiveram suas opções desde o começo. Os irmãos poderiam não ter agido influenciados pela inveja, como também José poderia não os ter perdoado e colocado todos em uma prisão perpétua com bastante sofrimento e vingança.

Mas, ao invés disso, ele preferiu tomar uma atitude mais nobre, sabendo que ele não seria o responsável pela consciência dos seus abusadores, mas seria responsável pela sua própria rota de decisão e pelo que viria a acontecer.

Por isso, dando um novo significado em todo o contexto da história, ele se tornou livre para rever o seu pai com saúde, paz e alegria. Ele entendeu, sentiu e expressou essa nova forma de enxergar, com um discurso muito claro.

É uma opção nossa viver e reviver rancor, como se este fosse um professor que nos ensina a mesma coisa ao levantar e principalmente ao deitar. Ele literalmente não tem nada de novo para ensinar, a não ser o que já sabemos.

E quando damos um novo sentido aos acontecimentos, nos é injetado um ânimo de novos horizontes. Ficamos mais entusiasmados pelos novos ensinamentos que o perdão nos proporciona e a liberdade que ele nos dá.

É como se aprendêssemos uma nova linguagem, como se nossa mente se abrisse para algo nunca visto e pudéssemos saborear as sensações de algo de qualidade, fresco e melhor. E toda essa novidade está a nossa disposição.

Ficamos totalmente submersos em um conhecimento que não tínhamos, como se as possibilidades se abrissem diante de nós. A vida se descomplica e nos toca com uma verdade simples e coerente, que antes não fazia sentido.

A leveza da compreensão é mais fácil de carregar e torna tudo mais limpo e límpido, como cores suaves que nos fazem descansar. Como se tocasse uma música preferida e lembrássemos dos melhores momentos da nossa vida.

A mudança de significado não é simples, mas quando se consegue, ela realmente facilita as dificuldades. Embora nos abracemos com força aos nossos conceitos antigos e ásperos, só é preciso esforço pra abrir essa porta.

O tamanho desse esforço será proporcional à sua prática, pois aquilo que temos costume de fazer e se torna uma frequência em nossa vida, traz algum tipo de mudança, seja ela positiva ou não. Basta se questionar e tentar.

Gn.45.5 - Apenas uma historia

Com certeza ainda não vejo tudo com bons olhos, mas cada dia que passa me pego fazendo o exercício da tolerância. O que antes era difícil, acabou sendo algo natural e espontâneo, como se fizesse parte de mim e do que acredito.

Ainda sou uma pessoa crítica, mas não vejo mais só o lado ruim, também saio cavando em busca de algo bom, em tudo que acontece na minha vida. Isso leva horas, dias, semanas, meses e até anos, mas eu não desisto de encontrar.

Embora eu tenha perdido muitas pessoas por esse caminho, acabei reavendo algumas, outras não, mas me permito tentar achar novas. Já que em cada uma delas eu posso ver parte do que vivi e consigo enxergar muito de mim mesmo.

Quando fico só, eu não sou mais torturado pelos meus pensamentos, pois eles se tornaram menos juízes de mim mesmo. E eu vi que eu tenho essa capacidade de suavizar de forma íntegra e sábia, quase tudo que vivencio.

Esse processo aconteceu porque alguém acreditou e nunca desistiu de mim. Esse alguém me fez andar na escuridão, que eu mesmo havia criado, mas, com uma luz suave e clara, me retirou de dentro daquele lugar solitário e vazio.

Perguntei porque aquilo tudo precisava acontecer, porque não era suficiente ler um livro ou ouvir alguém falar o que fazer, ou quem eu era. E a seguinte resposta foi dada com carinho, em uma voz doce e sem nenhuma acusação.

Meu filho, eu faço obras eternas, eu não dou informações que não possam ser vividas. Meu trabalho é irretocável e capaz de manifestar quem eu sou, pois tudo é feito com muita paciência, zelo e amor. Você é minha obra de arte.

Toda vez que você se culpou ou não perdoou alguém, aquilo virou uma marca profunda no seu coração, mas eu lhe dei um novo, pois peguei os seus pedaços e transformei em algo belo e parecido comigo. Eu lhe refiz de dentro pra fora.

A forma que você aprendeu a viver foi resultado de muitos anos de frustrações, até que eu lhe mostrei outro tipo de dor, chamada maturidade, capaz de remodelar os pensamentos. Não foi fácil, mas você está vivo pra contar.

Eu nunca desisti de você e vi seus momentos de desespero. Mas, cada vez que você via algo, como eu vejo, eu me alegrava mais com a excelência do meu trabalho. Como pai, como amigo, como Deus, eu sempre estarei por perto.

Gn.45.5 - frase de efeito