Reis | Falta algo

Na flor da idade

[1 Samuel 8.2]

Israel estava prestes a receber Saul como primeiro monarca da sua história. Ele era um rapaz alto, belo e estava na flor da idade, o que significava que era jovem, cheio de vigor e disposição para assumir um papel tão importante.

E ser rei, por si só, já tinha um peso enorme. Ainda mais quando se diz que seria o primeiro do povo do Deus todo-poderoso, o que deixava aquela responsabilidade mais gigante do que o normal.

Sendo assim, sabendo que Deus pode fazer nascer um rei de dentro de um “casulo” belo e inexperiente, não haveria o que temer. Seria apenas necessário que aquele jovem tivesse obedecido às ordens divinas, ao governar.

Mas, sabemos que não foi o que aconteceu. Saul tinha outras ideias, diferentes das divinas e seguia suas orientações pela metade, o que resultou em queda e substituição, que será discutida em outro momento.

Portanto, o que eu gostaria de refletir aqui, é sobre o que precisamos para assumirmos determinados papeis, sejam eles na família, na profissão, na sociedade, ou em qualquer âmbito, no qual temos algum tipo de influência.

Também não é o intuito listar todos os possíveis papeis e determinar as necessidades específicas de cada um deles, já que isso ficaria extenso, complexo e negligente. Então, foquemos em apenas um tema comum: servir.

Talvez esse seja um assunto mal interpretado e levado para a direção de traumas, como escravidão, humilhação e outros mais que podem vir à mente, quando falamos sobre. Só que não é por essa linha que devemos pensar.

Isto é, pensemos que servir seja algo inerente a nossa capacidade de ser útil para algo ou alguém, de forma que o cumprimento do nosso papel seja devidamente compreendido, benéfico e exercido com excelência.

O que seria o mesmo que dizer que somos capazes de, humildemente, executar as tantas funções que temos, em diferentes ambientes, conseguindo nos doar para outra pessoa e para Deus, em tudo.

Logo, o alto, belo e jovem Saul tinha a aparência certa. Foi escolhido para uma missão extraordinária e cheia de grandezas e era visivelmente a cara de um poderoso rei, que livraria seu povo dos inimigos.

Contudo, infelizmente, lhe faltou a altura da autêntica humildade, o jovem vigor da experiência e a beleza de quem deveria servir fielmente ao povo e ao próprio Deus, que lhe havia designado tal serviço.

Quem quiser tornar-se grande…que sirva

Mateus 20.26

Jesus não tinha formosura e cumpriu perfeitamente o seu papel como salvador da humanidade. Ele foi incumbido de realizar uma tarefa de extrema doação e o fez, nos deixando ensinamentos eternos (Isaías 53.2).

E, dentre as suas incontáveis mensagens, está uma que nos mostra a característica fundamental para qualquer função de influência que temos a exercer. A qual é a capacidade de servir.

Esta sim é o motor que faz girar todo sistema de relações, nos quais estamos inseridos, não apenas na sociedade como um todo, mas, inclusive na família. Uma vez que essas duas exigem de nós muitos papeis diferentes e complexos.

Por isso, se não formos capazes de entender cada um deles, nas suas particulares necessidades e demandas, vamos correr o risco de estarmos respaldados em aspectos que não fazem diferença alguma.

Ou seja, quem quiser descobrir o que é preciso para assumir um papel de grande influência para aqueles que lhe cercam, então que comece por servir e perceber o que significa se doar de forma integral a um propósito.

Já que, ao fazê-lo, as demais partes virão com o tempo da experiência, maturidade e responsabilidade adquiridas. Transformando aquilo em um alto conceito de sentido pessoal e em uma bela missão, na força da flor da idade.

Pois é. Quando queremos grandeza, esquecemos o que ela significa para nós e para os outros que vivem sob sua influência. Temos uma tendência de usá-la como um prêmio de mérito e não como uma fonte de serviço.

Nossa vaidosa altura, beleza e juventude tornam-se objeto de desejo e forma de superação das muitas frustrações que não sabemos como lidar. Virando uma poderosa arma de conquista de status e poder efêmeros.

Pois, o que num dia traz orgulho, no outro será apenas uma lembrança que, mesmo sendo contada milhares de vezes, não será recuperada, já que são atributos temporários e não têm o mesmo valor de um coração que serve.

Se não vermos com os olhos abertos o que de fato precisamos para uma função, pessoas sairão feridas e repletas de frustrações, que serão carregadas, às vezes, por uma vida inteira. O que também acontecerá conosco.

Portanto, ainda esquecemos que o tempo leva embora a altura para dar espaço ao nanismo emocional e espiritual, enquanto a nossa formosura é totalmente dispersa com a juventude, a qual dura muito pouco.

Atos de

Servir

Servir a Deus significa que eu entendo quem Ele é e me entrego aos seus propósitos bons, perfeitos e agradáveis. Entendo que fui amado e servido primeiro, pois recebi o que não poderia fazer por mim mesmo (Romanos 12.2).

Servir a um filho não significa que sou hierarquicamente menor. Pelo contrário, estou naturalmente acima para protegê-lo e orientá-lo. Só que, sem sair da posição, me ponho ao lado para ouvir e abaixo para cuidar (Efésios 6.4).

Servir um marido quer dizer que sou uma esposa fiel, que compreende e é um conforto para as horas difíceis, que o motiva e tem sabedoria para edificar a sua casa e a grandeza de ser os braços que acolhem (Provérbios 14.1).

Servir uma esposa está ligado ao amor que a ela é dedicado, assim como Cristo amou a sua igreja, sendo noivo bom, fiel e doador. É cuidar de quem faz parte do seu próprio corpo, em compromisso à pessoa e à aliança (Efésios 5.28).

Servir aos pais pode ser visto como um ato de obediência, respeito e consideração, estabelecidos na pessoa do Senhor. Assim como eles são uma autoridade natural na vida dos filhos, mesmo não sendo perfeitos (Efésios 6.2).

Ou seja, existem muitas outras facetas que podem ser representadas hierarquica e funcionalmente, nos variados sistemas de relação, aos quais estamos imersos, como empresas, escolas, faculdades e por aí vai.

Por isso, precisamos estar atentos a quem somos dentro de cada uma destas, de forma que não percamos a nossa identidade e também não deixemos de oferecer o melhor que podemos, em cada estrutura.

E o mais importante é sabermos que esses melhores atributos, que, na maioria das vezes, podem ser desenvolvidos, dificilmente serão encontrados a olhos nu. Isto é, a nossa altura, beleza e juventude são pouco essenciais aqui.

Sendo assim, apenas para confirmar a insuficiência dos olhos humanos, Deus falou para o profeta Samuel, ao substituir Saul, que não visse Davi pela aparência e estatura, porque Ele via o coração (1 Samuel 16.7).

Então, que possamos pedir para enxergar o coração humano, da forma divina, vendo a sua capacidade de servir, primeiramente, a Deus e aos propósitos definidos por Ele, em cada um dos nossos papeis nesta vida.

Servir não é um ato de humilhação, mas de humildade. É a compreensão do estado pessoal de cada um e de nós mesmos, nas muitas esferas de nossos convívios, dentro e fora de casa. Servir é um ato de amor.